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Como ser mais efetivo na hora de ensinar ou aprender

A todo momento estamos aprendendo alguma coisa, e algumas vezes precisamos passar esse conhecimento adquirido para alguém. Na Jera, trabalhamos bastante em duplas ou às vezes até em trios, e tudo isso tem um motivo: promover a colaboração entre as pessoas.

Mas tudo isso remete a outras teorias que tem mais base em propostas pedagógicas em si do que em computação propriamente dita. Bora descobrir um pouco mais sobre nesse texto.

Jean Piaget e o Construtivismo

Jean Piaget foi um biólogo, psicólogo e epistemólogo suíço que viveu de 1896 a 1980 e teve contribuições nas mais diversas áreas do conhecimento – inclusive em ciência da computação. Ele criou uma abordagem pedagógica chamada Construtivismo, que acredita que o conhecimento é algo que deve ser construído, mas para que isso ocorra a pessoa precisa ser estimulada.

Para ele, o aprendizado deve acontecer por meio do professor mediador e dos próprios alunos, ou seja, tanto a pessoa que seria responsável por “deter o conhecimento” é aquela que ensina, quanto as próprias pessoas que também estão aprendendo.

O objetivo da pessoa que está ensinando é de, através de alguns métodos, entender o quanto a pessoa que está sendo ensinada sabe sobre um determinado assunto, para assim conseguir passar tarefas que irão desafiá-la a buscar o conhecimento necessário para conseguir aplicar e resolver um problema.

Trocando por miúdos, a pessoa que ensina está “ensinando a aprender” mais do que propriamente dizendo o que a outra pessoa precisa fazer. Mas cuidado que isso não significa pular etapas: não é aprender algo só para ensinar! É ensinar um conhecimento que já foi construído.

Mas como se constrói esse conhecimento? Da onde ele vem?

Colocando em prática

Muitas vezes eu precisei treinar pessoas iniciantes que entraram no time e eu sentia que não estava sendo efetivo na hora de ensinar alguma coisa, era o famoso finge que entendeu que eu finjo que não percebi. Isso é ruim pois ao invés de contribuir para que a pessoa aprenda, se está apenas criando um laço de dependência, onde você sempre será consultado em todas as atividades feitas por aquele que está aprendendo.

Por conta disso resolvi ir atrás de formas de ensinar e encontrei algumas dicas e métodos que deram certo na prática. Claro que eu não sou formado na área de ensino e muito menos um expert no assunto, mas aqui vão algumas dessas técnicas que deram resultado no meu trabalho no dia a dia.

Planeje o que vai ensinar baseado no conhecimento prévio da pessoa

Um comportamento comum é o de sair falando exatamente o que a pessoa precisa fazer imaginando que ela vá assimilar isso da próxima vez que precisar, porém o máximo que isso pode fazer é ensinar a pessoa como resolver aquele problema daquela mesma forma e, caso ela esbarre com outra situação que até poderia estar associada, ela pode acabar não conseguindo assimilar as proximidades dos assuntos.

O ideal é dar um desafio para ela baseado no que ela sabe, e para descobrir o que ela sabe é necessário “testá-la”. Mas nada de dar uma prova para a pessoa ou algo do tipo, nem perguntar “você sabe tal coisa?”, pois a tendência é a pessoa responder “sim” por timidez ou medo de ser julgada.

Mas nada de falar também “então me explica tudo sobre tal coisa”, pois isso fará com que, dependendo do perfil da pessoa, ela nem saiba por onde começar ou quais pontos focar na explicação.

Exemplo: Quero descobrir o quão bem uma pessoa sabe desenhar uma árvore. A primeira ideia que vem a cabeça é a de pedir para a pessoa desenhar uma árvore, e de fato não tem outra forma imediata melhor, porém existem algumas formas de pedir para a pessoa desenhar essa árvore, como: 

  • Desenhar um exemplo de árvore e pedir para a pessoa fazer a dela; 
  • Explicar com alguns detalhes em texto ou verbalmente o como você gostaria que fosse essa árvore;
  • Apenas dizer para a pessoa desenhar uma árvore, sem maiores explicações.

Cada uma dessas formas tem a tendência de trazer alguns resultados específicos, como:

  • Ao desenhar a árvore de exemplo, a tendência é que a pessoa faça algo muito próximo daquilo que você desenhou, ou até mesmo usando os mesmos elementos, mesmo que ela saiba fazer algo diferente ou até mesmo melhor. Já percebeu que na redação do Enem, na maioria das vezes (senão na sua totalidade), os textos de apoio não são dissertativos argumentativos?
  • A tendência quando você passa uma descrição de como você gostaria que a árvore fosse é que, mesmo que não seja bonito, provavelmente todos os detalhes pedidos estarão lá pois a pessoa acaba se esforçando para fazer o mais perto possível do requerido.
  • Apenas dizer para a pessoa desenhar uma árvore será uma caixinha de surpresas. Você pode receber uma árvore feita com meia dúzia de linhas ou algo ultra realista com sombras e efeitos.

Analisando os padrões de respostas que podem vir dessas formas, a que mais se parece com um meio termo é a de descrever os detalhes que você gostaria que existissem no desenho, já que a primeira “mataria a criatividade” de algumas pessoas, enquanto a última seria imprevisível demais.

Claro que existem pessoas que acabam dando respostas diferentes do que seria o esperado, mas mesmo assim, a tática de usar a descrição dos elementos ainda é a que traz os melhores resultados, permitindo entender até onde vai a habilidade da pessoa. 

Afinal, se a descrição pedir uma árvore que tenha frutos pendurados, tenha galhos, tenha uma copa bem cheia e que o desenho tenha chão, você pode receber tanto um desenho assim:

Fonte: desenhoswiki.com.br

Quanto um desenho assim:

Fonte: freepik.com

E nenhuma delas estará errada, já que todas têm os elementos requeridos.

Dose o nível de desafio 

Essa é uma das questões mais difíceis dentro do assunto, afinal não existe uma receita de bolo de como se fazer isso, mas o seu trabalho fica mais fácil depois de entender até onde vão as habilidades da pessoa.

É importante ter passado pela primeira etapa para que você a utilize como insumo para essa próxima. Dependendo do contexto, você nem precisa pedir para a pessoa de fato produzir alguma coisa para que você analise, basta que você pegue algo já pronto previamente.

O que não é muito aconselhável é que se confie apenas nas evidências que a própria pessoa falou, afinal, você que está ensinando pode acabar não sendo a pessoa em que ela mais confia ou seja totalmente sincera.

E a dica de ouro: nunca parta do pressuposto que a pessoa não sabe nada! Essa é uma das piores formas de engajar alguém em alguma coisa. Eu tenho certeza que quando você topa com um curso por aí de algo que você já sabe alguma coisa mas queria aprender mais, no momento que o ministrante começa a falar algo que você já sabe, ou você para de prestar atenção ou você pula a parte toda.

Se você quer de fato ajudar alguém a aprender alguma coisa, pense em uma sequência de coisas que poderiam ser feitas para aprender e que formam algo concreto, mesmo que simples, que posteriormente servem para fazer algo maior e mais complexo. Isso te lembra de alguma coisa? Que tal um MVP?

Se você fosse ensinar alguém a fazer bolo recheado estilo de festa, talvez você devesse primeiro ensinar a fazer um cupcake, ou até mesmo um bolo básico comum. O conhecimento que você adquire em cada etapa irá construir toda uma solução para algo maior e mais complexo, e o melhor: durante todo o caminho você estará de fato fazendo alguma coisa que seja concreta!

Não dose os desafios pelas etapas intermediárias de um processo, planeje o desafio em produtos prontos menores. Num método mais tradicional, talvez esse “curso” para aprender a fazer bolo recheado com decoração estilo de festa tivesse uma etapa apenas para ensinar a quebrar ovos.

Quebraremos vários ovos, vou te ensinar o passo a passo de como quebrar um ovo de forma correta, você irá executar várias vezes e no final da etapa faremos um teste de quebrar ovos. Você faz tudo isso e passa com dez em quebrar ovos. Daí eu te pergunto: você vai conseguir fazer alguma coisa só com ovos quebrados?

Talvez você use isso para fazer uma omelete, mas imagina que você nunca nem tenha feito uma e nem saiba como fazer. Bom, quem sabe no curso de omelete você aprende depois de passar de novo pelo módulo de quebrar ovos…

Algumas etapas do caminho devem ser aprendidas na prática, buscando esse pequeno pedaço de conhecimento. Se eu te ensinar a fazer um cupcake, iremos quebrar alguns ovos e talvez você acabe largando um pequeno pedaço de casca no caminho porque não praticou muito. Mas seu cupcake vai estar lá, foi você quem fez! E claro, agora que ele está pronto eu vou te dizer onde você errou para que o próximo saia melhor, até que em algum momento quebrar os ovos será apenas uma parte fácil no processo.

Não pratique quebrar ovos, pratique fazer bolos (a menos que você vá participar de uma competição de quebrar ovos).

Estimule a participação de outras pessoas que também sabem

Imagine que nesse curso de aprender a fazer bolos recheados estilo de festa você tenha mais pessoas participando. Talvez você tenha pessoas que já saibam cozinhar pois aprenderam sozinhas em casa e agora só querem tentar fazer algo novo; talvez você tenha pessoas que trabalham fabricando bolos e agora querem tentar aperfeiçoar sua técnica; talvez você tenha pessoas que nem sequer sabem por onde começar a fazer um bolo.

Pensando que esse curso não tenha pré-requisito e que todas as pessoas participem juntas na mesma sala, você terá uma mistura de vários níveis de conhecimento no mesmo lugar, e isso é ótimo! Afinal, se você tiver feito os passos anteriores, você já sabe o nível de conhecimento de todos ali e você já planejou algo que seja um desafio em algum aspecto para todos, mesmo que eles sejam diferentes para os grupos.

Pense que o grupo mais experiente deve fazer um recheio que nunca tenha feito enquanto os iniciantes farão um cupcake básico. Consegue assimilar onde pessoas com níveis de conhecimento diferentes trabalham juntas? Exatamente, em qualquer time da Jera.

Pessoas com um nível de senioridade maior algumas vezes pegam tarefas complexas, enquanto estagiários pegam tarefas mais simples no começo, mas ambos ainda serão desafiados durante a execução, mesmo que as tarefas sejam diferentes. O mais importante é que todos eles estão trabalhando no exato mesmo time e projeto.

Para o sênior, a tarefa do estagiário é simples e ele já está acostumado a fazer, então porque não fazer com que essas partes se conversem? Afinal, mesmo que um deles tenha muito conhecimento, é necessário exercitar de vez em quando as coisas mais fáceis. Mas lembre-se: nem todo mundo tem a paciência e o perfil de estar disponível sempre, mas talvez pra responder uma dúvida pontual e rápida seja extremamente tranquilo.

Pense de novo no curso de bolos. Se em um dado momento uma etapa for a de bater a massa, todos os grupos estarão, provavelmente, em estágios diferentes, mas todos estarão executando ou pelo menos tentando. Se o iniciante tiver dúvida se o ponto da massa está bom, talvez seja mais simples e menos constrangedor para ele perguntar pro colega do lado que já fez ou sabe mais, do que parar o professor, mesmo que este esteja disponível e nunca julgaria a dúvida por mais simples que ela fosse.

Nessa ajuda, ambos estarão construindo ou praticando seus conhecimentos, e se o desafio tiver sido bem dosado para cada grupo, isso se dará de forma constante e orgânica. Trazendo isso para o nosso cotidiano de trabalho: times com níveis de conhecimento diferentes, se estiverem com os desafios na medida certa e num ambiente propício, tem altas chances de se ajudarem e serem mais eficazes em seu trabalho, mesmo que de vez em quando seja necessário uma ajudinha para a comunicação acontecer.

Claro que existem perfis mais complicados de se trabalhar, e não é sempre que você vai conseguir intermediar isso, mas basta ter mais do que só a figura de um mentor para que você esteja no caminho. Procure pessoas que estejam dispostas e que tenham domínios diferentes sobre um mesmo assunto.

Induza o pensamento através de problemas a serem resolvidos

Tá proibido falar como fazer direto sem fazer a pessoa pensar. Nem pensar em fazer tudo, olhar pra pessoa e perguntar “entendeu?”. Mas calma lá, nada de fazer uma volta no mundo na hora de explicar alguma coisa.

Nem todo conhecimento trará o retorno suficiente que compense ser construído, mas quando ele compensar o esforço, construa através de problemas a serem resolvidos. Mas cuidado com a forma que você arquiteta essa construção.

Modelos de ensino padrão tendem a considerar que as pessoas não sabem de nada e trazem toda uma carga de conceitos e teoria antes que de fato você seja induzido a pensar em como usar tudo isso.

Quantas vezes você estava na faculdade e pensou “meu Deus, pra que serve essa matéria?” e depois de vários semestres você teve uma epifania e disse “nossa, era pra isso então” – isso é, se algum dia você teve com todas as matérias esse momento de descobrir seu uso.

Esse sentimento é o que menos deveria acontecer, porque provavelmente você não prestou atenção suficiente na matéria na época e agora vai precisar revisar tudo para conseguir executar. E mesmo assim, se você parar para pensar, parece que esse conhecimento foi planejado para ser construído.

Bom, ele pode até ter sido planejado para isso, mas você nunca ficou sabendo, então tudo deixou de fazer sentido. Toda essa carga seria melhor aproveitada se no meio do caminho você tivesse problemas para resolver usando as ferramentas que você já aprendeu até ali, mas talvez precisando de alguma coisa ou outra que ainda não saiba mas poderia ir atrás.

Quer construir conhecimento? Diga para a pessoa o que precisa ser feito sem dizer exatamente o como, deixe ela planejar e executar da forma que conseguir e depois aponte as falhas e pontos de melhoria. Mas não se esqueça da etapa de dosar: se você dar um desafio muito acima do que a pessoa consegue, a única coisa que será construída é a ansiedade; se o desafio for muito abaixo, você vai construir tédio.

Cuidado com a forma de dizer os comos. Não é para sumir com os passos no caminho, é para dizer o que sai de resultado. Quando você pega uma receita, ela pode dizer que você deve derreter o chocolate em banho maria, mesmo que ele não te diga que raios é um banho maria.

E não se esqueça que de vez em quando você precisa deixar explícito algumas fontes que podem ser usadas. Lembra da redação do Enem? Os textos de apoio podem não ser uma dissertação, mas todos eles trazem alguns dados e interpretações que podem ser reaproveitadas ou usadas como base para o começo de algo diferente.

Tem um problema que precisa ser resolvido ou alguma ferramenta que precisa ser aprendida? Passe algum desafio que precisa ser resolvido, restrinja o tempo que a pessoa tem para executar, entregue coisas que já estão prontas, mesmo que em outras ferramentas, entregue os documentos que podem ser usados como consulta (não precisa restringir o uso de apenas eles, deixe isso claro se possível) ou ainda mostre o que você tentou fazer previamente que deu ou não certo – e às vezes até os motivos de não ter dado certo.

Você pode inclusive pontuar ferramentas ou técnicas que não devem ser usadas nesse desafio, já que essa restrição acontece normalmente nas tarefas do dia a dia, mas sempre deixe claro os motivos, para que a pessoa crie empatia com aquilo que ela está tentando resolver.

E se o problema for muito complexo para o momento, crie problemas menores dentro dele que podem ser resolvidos separadamente e os use como um caminho de desafios até o chefão final. Mas uma dica é: às vezes o objetivo final é grande demais e isso pode acabar matando a motivação ou dando desesperos desnecessários, então compartilhe alguns próximos passos mas talvez você deva esconder como vai ser o chefão final. O jogo online que você joga provavelmente não te mostra o planejamento de 5 anos, mas as vezes o do próximo semestre sim, mesmo que ele provavelmente já tenha mais coisas em mente.

O contexto é a palavra chave de tudo

Vão existir momentos em que você vai precisar apenas executar enquanto outra pessoa observa. Existem conhecimentos que serão apenas baseados em decorar como se faz. Mas relaxa, tá tudo bem não fazer todos os passos disso sempre.

Construir conhecimento algumas vezes custa caro demais para o retorno que ele dará, então não esqueça de planejar sempre o que será melhor. E claro, existe todo um problema relacionado a perfis de pessoas, e isso é toda uma área de pesquisa por si só. 

Mas saber de tudo isso pode ajudar a você mesmo, tanto na hora de ensinar alguém quanto para se ajudar a aprender algo. Todo o conceito do construtivismo nasceu para ensinar crianças, mas ela se prova funcionar para todas as etapas da vida, afinal o que são adultos senão grandes crianças curiosas – e talvez um pouco ansiosas.

Independente de tudo, adapte para o que você precisa e caso você tenha casos e necessidades específicas, construa o conhecimento de mais técnicas sobre o assunto. E lembre-se sempre que ver resultado é uma das melhores formas de se manter engajado.

E você nem precisa aplicar isso apenas em coisas relacionadas ao trabalho. Tá na hora de desaposentar aquele hobbie esquecido que você desistiu. Vai lá, pega o violão, aprenda três acordes e toque uma música com eles, do jeitinho que sair. Você não precisa aprender tudo de uma vez para começar a tentar. Vai lá, tente e aprenda.

 

Texto por Leonardo Kramer.